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30.6.08

Última Missiva

És vil, és reles, como toda a gente,
Não tens amor p’ra dar, mas quem o tem?
É só o Egoísmo, esse Insolente,
Quem manda nos afectos por[1] alguém.

Gostas por gostar como quem gosta
De fumar charutos de manhã;
Sentir é para ti como uma aposta,
E o coração, um rústico tantã!

Buscas o prémio – todos queremos prémios;
Buscas um ganho material e ôco;
Buscas, não o negues, o prazer.

É toda a gente avara pelos grémios.
Tudo o que tens, enquanto o tens, é pouco;
Vale todo mal, menos perder…

[1] Nota do Autor: Versão Alternativa: De

25.6.08

Numa Partida de Cartas (Ou Sobre a Mesa do Capitalismo)

Quatro distintos déspotas tenazes,
Sobre o quadrado verde da Pobreza,
Vão, em bufos, arremessando os ases
E a sua tirania sobre a mesa.

De focinho[1] lampeiro e um charuto,
As distintivas marcas dos soberbos,
Fitam as cartas com um olhar astuto
E cospem merda mastigando os verbos!

– Dois pares de reis! – Diz um – Dois pares, senhores!
Façam melhor, se houver engenho e jeito!
Até vos estala, ãih? Como chicotes! –

Sacode então a banha com calores,
Palpando, porco, um “não-sei-quê” de peito
De esquálidas e apáticas cocotes…

[1] Nota do Autor: Versão Alternativa: Lacinho

10.6.08

Num Bar


I

O embusteiro percorre os longos trilhos do bar.
É um actor cansado de novelas.
Faz tanto tempo já que anda a brincar
Por palcos e por telas!


Passa por gente e por coisas, mas tudo é sombra e tristeza.
Vive no Além, e abstrai-se, ausente.
Há muitos anos, era só leveza!
Hoje ele está diferente.

«Álcool! Antes que eu desmaie! A sobriedade adoece!
Acaso quer você que eu desfaleça?!»
E suplica um bagaço com uma prece,
Gingando com a cabeça.

No fundo está sozinho e quer cuidados. É humano!
Mas falta-lhe o governo de si próprio.
Vê fragmentos de si (e isso é um dano),
Como um caleidoscópio!

E julgando-se um ortónimo de outras vidas plenas
Recria-se em mais de mil maneiras.
Julga que assim mascara as suas penas!
E finge horas inteiras!

Faz um esforço insano, o que é de loucos!, para disfarçar
A frustração que sente em ser o que é.
Quer-se excepcional mas sabe-se vulgar –
Foi criado à má fé!

É um «engenho estragado!» de acordo com o seu prisma,
E qualquer aparelho quer concerto.
A cura do seu «estranho cataclisma»
É ter um bar aberto!

Um bar com gente, «ai! É Vinicius de Moraes! É Samba!»
É «A Felicidade» e outros sons!
Dancemos com o bagaço em corda bamba!
E a banda dá os tons!

«Amigos!, Pago duplos para todos! É minha a noite!
É minha a dor que trago só comigo!
Eu insisto! Já disse! Não se afoite!!
Cá está! Chamo-lhe um figo!

Aquela diva além, quero dançar! Que pernas lindas!
O Samba é festa! Ai, vem balançar!
Vem, doce, que eu te dou as boas-vindas!
Tens só tu de me amar!

Porque eu estou tão vazio no meu por dentro, ai sem razão!
Vivo em tonturas de me ter em mim!
Cansei-me de dar corda ao coração,
E o coração sem fim!

Hoje estou deprimido e eclipsei-me. Fora, Mundo!
Hoje quero o prazer de não lembrar.
Por isto, embebedei-me. Estou imundo!
Pudesse antes não estar!

Mas que sufôco, meu Deus! Abram janelas! Mais luz!
Matem gente, se acaso for preciso!
É indiferente, nada me seduz!
Nem o amor, nem o riso!

Sirva outro, garçon! É p’r’átestar! E não me embaia!
O outro que me deu soube-me a pouco.
Também Deus me deu vida, e tinha raia! –
Por isso fiquei louco!

Limites no sentir??! Tudo tão breve! Febre e Horror!
Doença de pensar e de ter ânsias!
Somos a lebre e o Tempo é o caçador.
Tudo o mais são distâncias.

Passam segundos, passam horas, meses, passam anos!
E, como os whiskyes, duplos de amargura.
E eu que passo em vão, como os decanos,
Sem ponta de ternura!»

E o intrujão emudece. Amplifica-se o silêncio.
Prolonga-se na noite e a Treva cresce.
E nem um mocho pia, (oh!, o Horror vence-o!)
A Sombra Eterna Desce.

Traz o Sétimo Selo na batina e a Foice à ilharga.
Não fala, não respira, não discursa.
Num gesto só, ceif’Ela a vida amarga,
Com a força de uma ursa!

E o impostor adormece, tombando no chão frio.
O burburinho morre num quebranto.
Nunca esteve tão cheio, este vazio,
De plúmbeo pasmo e espanto!

Ergueram-se alguns porfim do seu sid’rado torpor,
Para pegar no corpo ainda a expirar,
E o removerem (mas com que terror!)
Desse chão glaciar!

Deixaram os seus vícios e os seus egoísmos vis,
Tomaram o cadáver moribundo,
Uns pelos membros, outros p’los quadris;
Rezaram em quimbundo!

Gritaram em mil línguas os mil nomes da Fortuna
Sabidos no passar de cada porto;
Cantaram fados tristes de uma tuna,
Beberam pelo morto!

II

E alguém brindou então erguendo o copo
Aos astros que há no Céu.
E alguém gritou «Ladrão!; Tens esse corpo
Mas esse corpo é meu!»
Pois houve alguém que reclamou o morto –
E disse: «Ele sou eu!»

III

Ai esse alguém fui eu,
Ai, esse alguém fui eu!

6.6.08

Soneto de Conforto da Tristeza

Não plantes flores, que as flores são pesarosas,
Não ponhas novas esp'ranças nesse jarro;
Não dês mais beijos, lenços, lírios, rosas,
Não deites combustível nesse carro.

Morreu, está morto. A vida não regressa.
Se foi, já foi; não volta nunca mais.
Toma outro banho, sai e recomeça.
Outros virão, os dias, mais normais.

Cada tristeza tua é uma núvem
Que ofusca o céu da alma por instantes
Até se abrir de novo noutro sol.

Cuidado com os sentidos que confundem.
Sentir agora é já diferente de antes.
Não deixes ser mortalha o teu lençol.

4.4.08

Numa Qualquer Estrada Nos Sentidos...

Numa qualquer estrada
No sentido que me leva às obrigações,
Todos os dias,
Sempre que passo,
Há um menino segurando um balão.

Esquecendo por espaços os deveres,
Redescubro a alegria de encontrar um balão
Entre as mãos de alguém
Que ainda brinque com ele.

À lembrança de mim desce a Saudade
De brincar livremente,
Sem ter em mais que pensar,
E a nostalgia de reter esse fio
Que acreditava levar-me ao firmamento.

Sorrio, brevemente,
Com uma lágrima breve.
Depois, continuo o meu caminho…

E longe já da imagem desse menino pequeno,
Que brinca descansado e sem certezas
Sentindo (não buscando) a tal Felicidade
(Inocente e perfeita),
Vivendo os seus minutos
(Que não conta
E que não sabe contar)
Sem máscaras
Ou obrigações,
Assalta-me a tristeza de saber
Que nem todos os meninos sabem
O que é um balão
E o que podem fazer com ele
E tudo o que um balão representa.

E ainda mais triste é a certeza clara,
Provada pela experiência,
Que esse menino, em breve,
Vai esquecer o balão
E com certo prazer vai usar uma máscara
E com um certo orgulho vai ter uma obrigação
E com toda a responsabilidade do Mundo
Vai ser infeliz…

Eu desisti de todas as obrigações.
Por isso não corro mais aquela estrada incerta
E a criança perdeu-se além do meu olhar.

Sempre que olho o céu
Procurando um sinal,
Na esperança ainda de ver o balão,
Não vejo mais do que os pássaros.

Ó tu que tens nojo da máscara
E desprezas como eu as responsabilidades!
Ó tu a quem faz falta a antiga altura
Em que nada
Havia
Que pensar!

Se acaso correres a mesma estrada
E encontrares nela a criança,
Diz-lhe que não esqueça
A magia sublime de segurar um balão!

Assusta-a com a tua máscara
Como se fora o papão
(Que ela de noite teme),
Como se fora a bruxa horrenda (com que treme),
Como se fora Deus a vomitar!
Mostra-lhe os reveses da bonança!

Onde há a calma, há mudança,
Há tempestade no mar
Há tempestade no mar...

27.3.08

Bom Senso e Bom Gosto

Não gosto do Sol.
Odeio a chuva.
O Sol abrasa o corpo
E mais do que comporto
Queima e turva. A chuva?
É confusão.
Que possa o Sol brilhar quando eu quiser
A um simples mover da minha mão!

Não gosto de jardins.
Detesto flores.
Jardins são terra arada
Contendo em si plantada
A vaidade dos Homens. Flores?
Ostentação!
Que as possa eu pisar quando quiser
E deixá-las desfeitas nesse chão!

Não gosto de animais.
Grotescas aves!
Animais são formas que respiram
Sem raciocinar. Deliram.
Só. Liberdade, as aves?
Sonho! Abstracção!
Que as possa apagar quando quiser
Do coração!

Não gosto do mar.
Repugno a terra.
O mar é o lugar da tempestade
Onde enjoo e naufrago. Felicidade?
Não existe. A terra?
Abençoada e fértil? Imaginação!
Que a possa cavar quando quiser
E por-me dentro em eterna hibernação!

25.3.08

Comigo me Desavim[1]

Estava eu sentado à beira do Abismo
Quando veio do fundo a Fúria de um Sismo:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Sentando-me à beira de uma Ravina
Veio um grã Tornado a tolher-m’a Vida:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Quando veio do fundo a fúria de um Sismo
Tremeram-m’as mãos com’um Cataclismo:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Veio um grã Tornado a tolher-me a Vida
Por achar minh’Alma a sonhar desabrida:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Tremeram-m’as mãos com’um Cataclismo
E o Coração é só Ocultismo:
E eu aguardando o que não está comigo,
E eu aguardando o que não está comigo.

Por achar minh’Alma a sonhar desabrida,
Veio um Monstro grande que me fez grã f’rida:
Ah!, E esse monstro vivia comigo,
Ah!, E esse monstro vivia comigo!

[1] O título é, como poderão reconhecer, um verso de Sá de Miranda.

24.3.08

Idílios (À Moda Antiga)

Vês esse sol que brilha incandescente
E vem bater em todas as colinas?
Vês tu a lua d'ouro e transparente
Que se reflecte n'água cristalina?

O céu deixemos; vês naquele prado
A extasiante dança das boninas?
Consegues ver, naquele vale, deitado,
O bom pastor guardando suas bovinas?

E deixa o prado; sobe n'Avenida.
Crês nesse mar que, em sua correnteza,
Se bamboleia e aos barcos a seu gosto?

Tudo parece nesta triste vida…
Mas tu vês isto bem, tens a certeza?
Pois Tudo é Nada em vista do teu rosto!

23.3.08

Surpresa

I

Malmequer
Não o quer
Nem Muito
Pouco
Nem Nada.

Mas ele avança
(Está Mudo);

E ela conspira
No escuro;

Mas ele avança
(Está mudo);

E ela suspira
Enjoada.

Guarda a Morte
Enquanto espera
Dá-lhe a Morte
Envenenada.

Ela dança,
(Ele está mudo),
Ela respira
(Está escuro),
Ela respira
Excitada…

II

Foi um beijo?
Foi um murro?
Um ensejo,
Uma lufada
De um sopro que foi sussurro,
De uma carícia suada?

Nem carícias
Nem murmúrios,
Mas o frio de uma facada…

(…)

III

Malmequer,
Porque é mulher,
Já não me quer
Para nada.

Disse-se flor da manhã,
(Disse-se rosa encarnada!)
Mas despiu-se, a Escorpiã,
E cravou-me uma picada…

IV

Morri de amor, e por nada…

22.3.08

Proh Dolor 2 [1]

Estou só. Caramba! Tudo tão barroco! –
O rebuscado imenso das cortinas,
O taciturno ar de calabouço!
Júlia! Apresse-se! Abra a varanda!
Parece casa de mortos!
Mas o que faz, por onde anda?

Júlia não vem. Chiça! Tudo tão escuro! -
O abismo de todos os oceanos,
O precipício de todos os murmúrios
Estão em mim! Tudo se enguiça.
Ah! Pudesse ancorar em todos os portos
E por um termo à preguiça!

Mas não posso. Irra! E tudo tão triste! -
O cheiro do cigarro que ainda queima,
As marcas de uma ferida que persiste!
Estar vivo! Ah! Constipação! Espirro,
Como respiro, e é tudo.
O resto são recortes
De intriga rocambolesca! O que é, delira.

Por isso não sou. Arre! E foram tantos anos! -
"Magnum fuit" todo o desperdício!
Pouco é o que agora sobra: Um pouco de ar.
E para qualquer plano agora é tarde.
Quem possa que ponha mãos à obra.
Boa sorte. Eu cá me fico. Perdi o que estava por passar…

O sonho arde.

[1]Nota do Crítico Literário: d'Après Cesário.

19.3.08

Ficções da Vida - Um Auto-Consumo

Nesta noite de chuva
Se houvesse alguém que me amasse,
Que me emprestasse o seu ombro
E me abrisse um espaço
Onde pousasse a cabeça, frágil como loiças,
Talvez pudesse, um pouco, descansar.
Com alguém a amparar-me
E a ajudar-me a estabelecer as minhas metas
Julgar-me-ia feliz
Mesmo sabendo que não passava de um sonho…

Como o homem do campo pisa a uva
Até que dê mosto, até que o dia passe
E a noite chegue, e o assombro,
E o cansaço,
Eu pisaria o chão das coisas,
Com firmeza e vagar,
Até estafar-me
Ou até torná-las concretas.
Como não tenho ninguém, no meu almofariz
A mim mesmo me ponho;

E esmago-me, com nervo, inteiramente,
Até me esvair num sangue rubro e quente
Ou Morfeu jogar em mim suaves setas…

15.3.08

O Mar

Menina
Descalça
Na praia
Realça
As conchas
Do mar.

Menina
Morena
Na noite
Serena
As ondas
Do mar.

Mimosa
Menina
Sorrindo
Caminha
Na água
Do mar!

Que importa
Se é fria?
Que interessa
A agonia
Se posso
Bailar?

E da Ilha
Do Fogo,
Se a música
Se ouve,
Começa
A dançar.

Se há
Desavença,
Na calma
Contempla
O claro
Luar.

«Ser livre
Ou fugaz!
Ter tanto
De Paz
Como d’água
O mar!»

Quão nobre
Desejo!
Mas, oh!
O que vejo
É tão
Invulgar!

Se alguém
Cai por terra
Ninguém
O alegra
Ou vai
Ajudar.

Perdendo
Uma mão,
Se noutra
Há valor,
Já lha vão
Cortar.

Que Mundo
Pagão!
E o senso
Cristão?
Perdeu-se
No ar!

Mas da Ilha
Do Fogo,
Se a música
Se ouve,
Começa
A dançar.

Se há
Desavença,
Na calma
Contempla
O claro
Luar.

Menina
Na chuva
Abraça
A espuma,
E os corais
Do mar.

E por entre
As algas
E os búzios
Desfralda
Sorrisos
Sem par.

«Menina,
A vergonha!
Juízo!
Componha
A saia,
O colar!»

Mas ela
Alheada,
Mergulha
Entre as vagas
E deixa-se
Estar.[1]

E da Ilha
Do Fogo,
Se a música
Se ouve,
Começa
A dançar.

E se há
Desavença,
Na calma
Contempla
O claro Luar.

E da Ilha
Da Calma
Onde a Praia
E a alma
São um só
Lugar,

Ela brinca
Com a vida
E na areia
Fina
Começa
A sonhar:

«Ser como
Esta Ilha,
Conter
Maravilhas,
Voar
Como as aves!

Manter
A Esperança
De ficar
Criança
Pela Eternidade.

Não ter
Pesadelos
E ser
Tudo Belo
Como azul
O mar.

Poder
Ser a sério
Este céu
Etéreo,
Não ter
De sonhar…»

E da Ilha
Do Fogo,
Se a música
Se ouve,
Começa
A dançar.

Se há
Desavença,
Na calma
Contempla
O claro
Luar.

Menina
Descalça
Na praia
Realça
As conchas
Do mar.

E brinca
Com a vida,
Na areia
Fina,
E põe-se
A sonhar:

«Não ter
Pesadelos
E ser
Tudo Belo
Como o mar
Azul.

Poder
Ser a sério
Este céu
Etéreo,
Não ser
Um paul…

Mas é tudo
Triste,
O azul
Não existe
No mar
Mas no céu.

As coisas
São feias
E as pessoas
Cheias
De angústia
E de breu.

Por isso
É o Silêncio
Que guardamos
Dentro
E nos faz
Pesados,

Por isso
Vestimos
Estes fatos
Pretos
E muito
Apertados.

Mas na Ilha
Do Fogo,
Há música!
Ouve!
Só tens
De dançar!

E se há
Desavença,
Na calma,
Contempla
O claro
Luar!

A dor,
O que importa,[2]
Se o Azul
Existe?
Vem ver,
Vem amar!

Há dor?
Não importa…
Porque em rir
Consiste
Viver,
Respirar…

E na Ilha
Do Fogo
Há música!
Ouve!
É dançar,
É dançar,
É dançar,
É dançar,
É dançar,
É dançar!»

[1] Nota do Autor: Versão brasileira: Se deixa/ levar.
[2] Nota do Autor: Versões alternativas: a) A dor?/ Que me importa?, ou b) Onde/ Qu'importa?, etc.
Que cada leitor escolha a sua preferida. Aplique-a após a escolha: SEJA A SUA PRÓPRIA VIA. Leu o texto? Mudou o texto. Mudou o texto? Fez poesia…