Mostrar mensagens com a etiqueta Cinemanias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinemanias. Mostrar todas as mensagens

22.4.08

O Gume Vai (Re-re...n)Ver... Blade Runner

O genial e poético clássico de ficção científica, Blade Runner, (a obra-prima por excelência do inconstante Ridley Scott, com banda sonora de luxo de Vangelis - o seu melhor trabalho), volta às salas de cinema, 25 anos depois da estreia, numa versão comemorativa. Visto pela primeira vez em Portugal em 1983, no Fantasporto (estreado nos Estados Unidos em 82) , o filme tem re-estreia marcada para quinta-feira, 24 de Abril, numa nova versão, para além das 5 já existentes - The Director's Cut e outras 4 de arquivo. O Gume, fanático por obras-primas, cometeu a loucura de adquirir a edição especial em dvd e tem andado a regalar-se com as várias facetas deste filme que é, ao jeito de Nietzsche, demasiado humano. Tão humano, aliás, que nos faz questionar a nossa própria noção de "ser natural". O que é a Humanidade enquanto qualdiade de uma espécie, característica distintiva de outras ditas selvagens ou elementarmente animais (ou mecânicas)? Até que ponto não nos confundimos com os circuitos das máquinas, e até que ponto uma criação artificial, quanto mais completa, não se aproxima de nós, não reflecte as nossas ansiedades, os nossos dramas, o nosso problema da existência? A questão de Philip K. Dick (enunciada como título da obra escrita em 1966 que depois deu origem ao filme de Scott) é por demais pertinente (e cada vez mais pertinente): "Do Androids Dream of Electric Sheep?". E com que sonhamos nós? Os autores do argumento (Hampton e Peoples) alteraram-no substancialmente em relação à obra de Dick (de que sobreviveu o sentido, o fio condutor), e os próprios actores, como o fantástico Rutger Hauer (o lider andróide Roy Batty) contribuiram de forma indelével para a criação de momentos de verdadeira elegância no argumento, caso do seu belíssimo discurso final, na já icónica batalha à chuva com Deckard (Harrison Ford). Mas livro e filme (e mais reinvenções e interpretações que deles façam) mantêm a questão central sobre a natureza do Homem e a sua febre inata de conhecimento. Um e outro levam-nos a reflectir sobre o sentimento de revolta existencialista intrínseco a todo aquele que questiona, que põe em causa a visão "oficial" ou comum sobre qualquer aspecto da realidade ou da vida. O encontro de Batty com o brilhante Dr. Eldon Tyrell (também ele um "replicant" de acordo com certas interpretações/versões do argumento/filme - dúvida igualmente imposta ao implacável Deckard) é facilmente equiparável ao confronto entre o Orestes de Sartre e Zeus, seu criador (Cf. Sartre, Les Mouches, 1943). E até mesmo as respostas de um e outro "deus", não diferirão muito no sentido. Tyrell é mais discreto, mais subtil do que Zeus na sua arrogância, mas em ambos os "omnipotentes" se acha a mesma frieza objectiva, o mesmo orgulho da criação, a mesma noção de superioridade numa desiquilibrada relação de Poder. E o fim irónico de Tyrell limita-se a ser mais ilustrativo e fisicamente violento do que o de Zeus sartriano, pois também o segundo perece (o símbolo é, creio, a mais poderosa e perigosa das armas) sob o peso da vontade/afirmação da liberdade individual de Orestes. No entanto, esta descoberta da individualidade/liberdade alimenta (como efeito secundário) o desejo de vida eterna; segue-se, pois (inevitável), a luta pela sobrevivência, pela utopia da perfeição. Blade Runner é um olhar sobre estas angústias típicas de cada consciência, uma análise do sentido de ser, um lamento sobre a efemeridade da vida num universo simbólico de eras futuristas que cada vez mais se firmam no tempo em que vivemos (como já então se firmavam).
De facto, a LA de 2019 de Blade Runner, pode ser já esta Lisboa de 2008 ("these are indeed dangerous days"). Os "replicants" em análise podem não ser os mesmos ou não ser bem andróides (ou ou seus mais avançados modelos Nexus6, ou 11 ou n), mas as lutas centrais do filme confundem-se facilmente com as nossas desilusões e frustrações, com as nossas dúvidas e esperanças diárias, acabando nós por mais depressa nos identificamos com esses andróides (que realmente somos) do que com o homem que os caça. Já se perguntaram porque os caça?
"Replicants are like any other machine. Either they are a benefit or a hazzard. If they are a benefit it is not my problem"
(Deckard, para Rachel, numa das cenas iniciais)
Será que não? É ou não é, caro leitor, também um seu problema?

21.4.08

O Gume Foi Ver... The Bucket List

Se eu fizer metade do que fez um velho de 70 anos em apenas 6 meses de aflição oncológica, na minha vida inteira, considero-me um homem feliz.
"The Bucket List" não é apenas mais uma lista de supermercado baseada em mais um cliché "carpe diem" do "do before you die". É uma lição de vida que comove e educa como deve fazer qualquer lição que se preze e valha mesmo a pena.
E que prazer ver a dupla Freeman/ Nicholson!
Há homens que fazem um filme, mais do que as imagens. Vá ver! E aprenda com eles. O segredo da vida é a leveza. Quanto peso precisará de carregar para entender esta verdade insofismável? Ao contrário do que diz o mito, não foi Zeus quem castigou o titã Atlas, mas ele (Atlas) que, por cegueira material, se puniu a si próprio. O mundo é uma esfera suspensa no espaço. Porque insiste em carregá-lo? Viva, desprenda-se, levite com ele!

26.3.08

O Gume Foi Ver.. 10.000 A.C. ...

...Um filme de agora, sobre o tempo das paliçadas (mas que não mostra paliçadas), na terra onde Judas perdeu as botas: isto é, lá longe.
É uma obra de 2ª, com argumento de 2ª e actores de 2ª... quer dizer... Evolet (Camilla Belle) é uma actriz de 1ª categoria: tem um talento enorme, que se reflecte nuns bonitos olhos azuis (ou umas bonitas lentes de contacto, mas não interessa), umas linhas dramaticamente muito convincentes, uma aura de Ofélia shakesperiana encantadora (sem a vertente do suicídio e com um bonito momento de ressureição muito adequado a esta quadra "Pascoal" - espero não ter contado o fim a ninguém) e umas curvas de fazer arrepiar um morto!
E também de 1ª categoria são as gargalhadas que o realizador nos oferece.
Além disso, 10.000 A.C. é extremamente didáctico. Com este filme aprendemos que há muitos, muitos anos havia um povo além das montanhas chamado Yaghul que tinha uma feiticeira que às escondidas fumava ópio e por isso via coisas. Este dado não é novo mas demonstra, de forma reveladora e inequívoca, como desde sempre Política e Religião se acharam interligadas: pelo delírio oferecido por uma boa droga.
Aprendemos que os homens de 10.000 A.C. e arredores temporais conviviam com galinhas gigantes chamadas galinhossaurus ou algo assim parecido, que subiam árvores, tinham mau humor, e que papavam com gula e prazer tudo o que lhes surgisse à frente, inclusive homo sapiens (quase sapiens duas vezes) cabeludos e a cheirar mal que tresandavam; e estes bichinhos simpáticos (cronologicamente falando) eram companheiros da civilização egípcia, conquistadora de aquém e além deserto e viajante do Nilo.
De facto, aprendemos que os egípcios "voavam sobre as águas", isto é, andavam de barco (coisa de pasmar!) para angariar escravos com que iriam construir as Pirâmides de José, perdão Gigé, gaita, Gizé (ou Gisé?) que eram feitas com belas rampas de calhau, muita força braçal e... Mammuks!!!!
Os Mammuks são os protótipos dos Mamutes modernos, que são os protótipos dos elefantes contemporâneos, que são os protótipos dos paquidermes mirrados actuais que por milagre ainda se encontram aqui e ali em partes africanas e asiáticas do nosso planeta mas em acelerada situação de extinção. A estes Dumbos com que tanto simpatizo (e que já conheceram melhores dias) o meu abraço.
Conseguimos ainda perceber, com 10.000 A.C., que os egípcios foram os inventores dos snobs e dos travestis, que gostavam de se pintar dos beiços até ao rego e de usar unhas artificiais maiores do que o meu fémur (que já tem um tamanho assaz considerável).
Depois desta riqueza de informação histórica, muito educativa, os efeitos especiais ainda são do melhor do filme (para além das gargalhadas e da nossa Evolet já anteiormente referidas) e eles dão-nos ainda o prazer raro de ver um grande Tigre-Dentes-de-Sabre no seu habitat natural, sendo este Tigre-Dentes-de-Sabre protótipo do tigre moderno, que é protótipo do felino contemporâneo, que é por sua vez um protótipo do mirrado gato actual que por milagre ainda se encontra aqui e ali em partes africanas e asiáticas do nosso planeta mas em acelerada situação de extinção.. A estes bichanos com que tanto simpatizo (e que já conheceram melhores dias) o meu abraço...
10.000 A.C. explica ainda a Génese do 1º Herói da Humanidade (o primeiro a conseguir, guiando-se pelas estrelas, fazer um Lisboa-Dakar, a pé, mas partindo de Ceuta em vez de ser de Lisboa para não ter problemas com a organização francesa)e diz-nos que o seu nome foi D'Leh, que deu depois origem, além galáxia, ao Jar-El (a.k.a Superman!), e no mundo da contabilidade e auditoria, à Super, Extraordinária, Insubstituível, Incorruptível (a quem nada escapa) Deloitte - onde tudo é visto, revisto e como tal aprovado, mesmo que com algum... delay... (por favor, haja alguém que regue esta piada porque a pobre morre de sede, pede-se uma alma caridosa à caixa central, etc., etc. - mudemos de parágrafo).
10.000 A.C. aborda o tema da divindade (questão antiga da Humanidade que o Gume voltará a abordar com maior pormenor) e, falando do Sublime, mostra-nos deuses todo-poderosos, imortais e inabaláveis, que afinal eram homens, perecíveis e tinham pés de barro. Coisa estranha! Sempre pensei que houvesse deuses a sério!!!
E, além da...


Evolet, Evolet, Evolet,
once my eyes have seen you, how could they forget?!,




fica, como digna de registo, esta apreciação/consideração final:

10.000 A.C. mostra-nos que, há 12.008 anos atrás, os homens também choravam... E ainda assim podiam ser heróis...

(Desculpem-me, mas desta vez o Gume verteu uma lágrima. E se ele é heróico!)

21.3.08

O Gume Apaixonou-se Por...

... Este...


Que Nadine Labaki:


Escreveu, realizou, interpretou e... é...

O seu filme retrata de forma absolutamente extraordinária e divertida uma certa parte de Beirute, um certo modo de vida, uma certa forma de encarar as leis libanesas, bem como as tristezas, as diferenças, os desencontros e as dificuldades de um grupo de mulheres cuja acção diária se centra num pequeno salão de beleza (símbolo, a meu ver, de algo maior). E retrata também, com a mesma extraordinariedade, a personalidade de quem o imaginou. "Caramel" redefine a doçura e aguça a gula. Prove. Corre o risco de ficar... Enchanté...